MINI-HISTÓRIA

 

História remetida pelo leitor e amigo Nava

Certa noite, um vizinho aparece na porta de minha casa. Estava acompanhado da mãe, do irmão e da esposa de um sujeito que bebia todas. A esposa estava desesperada, pronta para separar-se dele. Segundo me contaram, temiam que, aos poucos, ele fosse beber a lojinha de roupas da mulher, no bairro.

Eu me prontifiquei a conversar, claro. Perguntei: - ele aceita conversar comigo? Será que ele está mesmo querendo parar de beber?

Juraram todos, de pés juntos, que sim! Liguei para o envolvido, conversamos e ele aceitou um encontro. Marcou numa pracinha, não queria na casa dele, achei que era de vergonha da mulher.

Quando comecei a nossa tradicional  conversa de abordagem, ele olhou firme para mim e me interrompeu:

- Sabe, seu fulano, na verdade o senhor está perdendo seu tempo. Minha esposa, ultimamente, tem jurado que se eu não parar de beber, ela vai se separar de mim. E eu estou só esperando isso acontecer, para “juntar os trapos”  com outra mulher, um mulherão, que estou namorando. Se eu parar de beber agora, ela não me deixa.

 

 

EU SOU A OVELHA PERDIDA

 

Eu as vezes acho que sou muito bom no que faço, que é tratar com pessoas em dificuldades, especialmente na área de dependência química. Também em escrever, eu me acho. E no fundo, hoje, tudo na minha vida se resume em pessoas, seja falando, especialmente ouvindo, escrevendo, ou em silêncio. Refiro-me a passar pra frente tudo que tenho aprendido nessa grande complicação que é viver a vida. Viver  a vida com pessoas, claro, a vida é muito simples, o duro são as pessoas.

        Sei que tudo vem de Deus, ele escolhe pessoas despreparadas e limitadas como eu e as prepara, as habilita, até coloca palavras em suas bocas. Muitas vezes, porém, lá no fundo do meu lado impostor eu penso: e o meu velho jeitão, e minha manha, não contam nada?

        Pois não contam. É preciso reverter isso. Não sou esse grande cara. Sou apenas uma pessoa em permanente busca de mim mesmo, tentando o tempo todo chegar às águas de descanso. Eu sou a ovelha perdida, o que escrevo, é para eu ler, o que falo é para eu ouvir. Sou pastor é de mim mesmo, vivo me perdendo.

        Acho que chega de postura pseudomessiânica. Serão felizes os que reconhecem que são pobres de espírito. Eu reconheço...às vezes, sou feliz...às vezes.

        Não é o outro, não é o famoso “próximo”, mas preciso aceitar no coração que eu é que sou o meu alvo principal, o miserável, o digno de compaixão, o pobre, o cego, e que estou nu. 

       

 

MUITAS PEQUENAS PRISÕES

 

 

O primeiro passo do programa de restauração diz o seguinte: “Admitimos ser impotentes perante nossas dependências, comportamentos compulsivos e defeitos de caráter, e que tínhamos perdido o domínio sobre nossas vidas”. Esta versão amplificada do original é utilizada na minha igreja, juntamente  com os onze demais passos, num programa chamado Celebrando a Recuperação, ou Celebrate Recovery,  para tratar de muitas dificuldades pessoais, muitas pequenas prisões em que me encerro e não tenho força pessoal para me libertar delas, sou impotente.

Você quer exemplos dessas pequenas prisões? Olha a lista: mágoas, abusos e culpas do passado, ressentimentos, luto, orgulho,  insegurança, timidez, medo, relacionamentos quebrados, perfeccionismo, descontrole financeiro, luxúria, obsessão pelo trabalho, mentira, viver a vida de outra pessoa (co-dependência), jogo, compulsão por compras, ódio/ira, comida, álcool, outras drogas.

         Você me pergunta, porque luto? Conheci uma mulher em São Paulo que perdeu o marido com quarenta e poucos anos, nunca se conformou, nunca teve aceitação. Ela passava mais tempo com ele num mundo de fantasia do que vivendo sua vida real. Iam ao shopping, ao cinema, jantar fora, ela fazia almoços domingueiros com ele e os filhos, os sonhos era elaborados, detalhados, conversavam muito, ela criava os diálogos.

         Das dificuldades listadas acima, a co-dependência sem dúvida é a primeirona.  O co-dependente vive a vida de outra pessoa, chega um ponto em que já não sabe mais do que gosta, só sabe do que o outro gosta, não sabe mais o que sente, só sabe o que o outro sente, não sabe mais o que quer, só sabe o que o outro quer.

         Viver a vida de outro é viver a vida de outro, seja qual for a situação familiar. Há casos agudos de co-dependência em lares onde tem um dependente químico, e há também em lares onde aparentemente não existe disfunção.

         Outro dia, ligou-me uma senhora que tinha um irmão dependente químico, dependente de pornografia, dependente de prostitutas, aquele quadro conhecido. Depois de um início de conversa difícil, ela estava em estado grave de negação,  quando lhe perguntei se o irmão queria ajuda, acabou desabafando: “Olha, ele é um ingrato. Eu pago o aluguel dele, dou mesada (o cara tinha 35 anos), cuido da roupa, faço compras de supermercado, e mesmo assim ele não quer ajuda”.

         “Ah, minha senhora”, respondi, “desse jeito nem eu ia querer”.

         Na outra ponta da co-dependência, uma companheira me confidenciou: “eu controlei tanto meu filho na adolescência que ele nem precisava saber o dia de prova. Eu sabia para ele. Nem precisava saber o horário de estudar. Eu sabia para ele”. E esse rapaz,  hoje adulto, nunca bebeu nunca fumou, leva uma vida normal, apenas tinha um ritmo diferente da mãe.

         Depois de vários anos focado só no álcool e em vagos e inacessíveis defeitos de caráter, acabei me identificando e me enquadrando em quase todas as dependências citadas no início deste texto.

         Pensei então: porque não o grupo e os Doze Passos para tratar de tudo isso? Foi aí que parei de contar só as histórias do álcool e comecei a contar todas as minhas histórias.

         Porque recuperação, segundo Jonh Burns, é contar histórias.

 

A ELEGÂNCIA DO COMPORTAMENTO

 

Existe uma coisa difícil de ser ensinada e que, talvez por isso, esteja cada
vez mais rara: a elegância do comportamento.
É um dom que vai muito além do uso correto dos talheres e que abrange bem
mais do que dizer um simples obrigado diante de uma gentileza.
É a elegância que nos acompanha da primeira hora da manhã até a hora de
dormir e que se manifesta nas situações mais prosaicas, quando não há festa
alguma nem fotógrafos por perto.
É uma elegância desobrigada.
É possível detectá-la nas pessoas que elogiam mais do que criticam.
Nas pessoas que escutam mais do que falam.
E quando falam, passam longe da fofoca, das maldades ampliadas no boca a
boca.
É possível detectá-las nas pessoas que não usam um tom superior de voz.
Nas pessoas que evitam assuntos constrangedores porque não sentem prazer em
humilhar os outros.
É possível detectá-la em pessoas pontuais.
Elegante é quem demonstra interesse por assuntos que desconhece, é quem
cumpre o que promete e, ao receber uma ligação, não recomenda à secretária
que pergunte antes quem está falando e só depois manda dizer se está ou não
está.
É elegante não ficar espaçoso demais.
É elegante não mudar seu estilo apenas para se adaptar ao de outro.
É muito elegante não falar de dinheiro em bate-papos informais.
É elegante retribuir carinho e solidariedade.
Sobrenome, jóias, e nariz empinado não substituem a elegância do gesto.
Não há livro que ensine alguém a ter uma visão generosa do mundo, a estar
nele de uma forma não arrogante.
Pode-se tentar capturar esta delicadeza natural através da observação, mas
tentar imitá-la é improdutivo.
Se estamos sofrendo, é porque estamos colhendo os frutos amargos das
sementeiras errôneas. Fique alerta quanto ao momento presente. Plante apenas
sementes de sinceridade e de amor, para colher amanhã os frutos doces da
alegria e da felicidade. Cada um colhe, exatamente, aquilo que plantou.”

(texto extraído da internet)



MANTENDO A PORTA ABERTA

 

Desde a semana  passada, comecei a vir à igreja para dar um plantão às quartas e quintas, das  nove ao meio-dia. Colocaram-me no berçário, tanto por falta de salas como com o argumento de que aqui tem ar condicionado, “afinal o Zé já está carecendo de certos cuidados, como ar  fresco”. Estou achando, porém, que o motivo real não foi bem esse. Sabe, aqui tem um colchãozinho num canto,  um chiqueirinho grande e muito bem forrado, onde cabe perfeitamente um adulto de altura média.

Eu chego, o pessoal coloca uma mesa, duas cadeiras e pronto, estou instalado. Venho para o que o pessoal daqui chama de aconselhamento. Não tenho nenhuma crise com essa palavra, afinal tem muita gente com muita bagagem, experiência e conhecimento para isso. No meu caso, porém, como eu conheço bem meu ego super dimensionado, prefiro baixar minha bola e me colocar em pé de igualdade com a vítima que se aventurar a vir conversar comigo. Nem mais acima nem mais abaixo. Acho melhor chamar de compartilhamento. Porque, é preciso que se diga, eu estou vindo aqui porque eu preciso, porque me faz bem, me deixa em paz com o mundo, me aproxima mais de Deus. E também porque eu saio da toca, que é meu escritório nos fundos de casa, eu tenho uma tendência muito forte de me isolar, de me fechar,  e isso é muito perigoso para mim, lembra aquele provérbio: “há caminhos que parecem bons, mas que levam à morte”. Parece que eu curto me isolar, mas só parece. Como aprendi com vocês no grupo, não posso confiar em mim mesmo, o único cara que passa rasteira em mim sou eu mesmo. Ou como aprendi na igreja, “não confie no seu próprio entendimento...”.

Tenho muitas idéias. Atendimento individual, sequência de encontros com a mesma pessoa até o terceiro passo, por exemplo, formação de grupos com dificuldades afins, como culpa, ressentimento, mágoas, falta de perdão, etc. São idéias, porém. Vai depender das pessoas quererem vir. A minha parte é uma só, muito simples: “manter a porta aberta”.

Aprendi isso há mais de vinte anos. Uma vez, estávamos limpando a sala, uma tentativa de começar um grupo novo, eu ia coordenar, uma hora reclamei com meu padrinho João Roberto: “e se não vier ninguém? Será um trabalho perdido”. Ele retrucou: “Zé, nunca será um trabalho perdido. O seu papel é manter a porta aberta. A irmandade de São Paulo começou assim, uma pequena e modesta sala, e uma única pessoa lá dentro, dias e dias, meses, mantendo a porta aberta. Hoje, só na capital, há mais de quatrocentos grupos”. 

         Essa lembrança de agora me remeteu a um grande amigo. Ele foi um dos dois que ficou sozinho naquela sala modesta, há tantos anos atrás. Trata-se de um senhor de cor, baixo, invocado, que sempre usou terno e gravata. É um ícone em São Paulo. Tive o privilégio de encontrar-me muitas vezes com ele, inclusive almoçou comigo aqui em Vinhedo, na minha casa. Ele falava “fiquei meses sozinho naquela sala, revesando com outro, só mantendo a porta aberta, até que, um dia, entrou um cara bem sofrido, que falou: “eu tenho problemas”. Respondi para ele: entre, aqui é o seu lugar”.

Para fechar este texto, uma história desse amigo. Teve uma época que ele cismou com os fumantes e com o cigarro. Fazia discursos terríveis para os fumantes, pintava um quadro de terror para quem quisesse ouvir. Um dia, estávamos falando sobre um amigo comum que havia morrido num acidente de carro na avenida 23 de Maio. Pois ele comentou: “foi por causa do cigarro”. “Ô fulano, não exagera, foi um acidente”. “Pois é, respondeu ele, o cara tava fumando enquanto dirigia, bateu um vento e jogou uma brasa no olho dele. Aí aconteceu o desastre e ele morreu, morreu do cigarro”.

        

 

 

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BRASIL , Sudeste , Homem , Portuguese , Livros , Esportes , José Roberto Soares Pires, autor do livro Sou um perigoso porco-esp

 
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