COMO DIZIA MEU PADRINHO

 

Como dizia meu padrinho, se você não quer chegar no Rio de Janeiro, não compre  a passagem nem entre no avião. São as fortíssimas tentações de recair. Quando eu inicio a recuperação de alguma dependência ou mau hábito, a minha parte no trabalho de Deus é muito importante. Deus não vai segurar a minha mão para eu não entrar em sites pornográficos, nem para ligar a tv “naqueles” horários e canais, nem segurar a minha língua para que eu não solte aquela palavra destruidora, nem apertar meu ego até ele diminuir um pouco,  nem vai me impedir de tentar ser Ele, ou de tentar viver a vida de meu marido ou de minha esposa ou de meu filho. Sua restauração não vai cair do céu numa medalha de prata. O “e tudo se fez novo” é um processo que exige uma dura passagem pelo deserto. Abstinência. Eu entro no deserto da abstinência, confiando cegamente que ali na frente ele vai me dar a força e a direção. Uma coluna de fogo às noites e uma coluna de nuvens durante cada dia. Rick Warren disse: “O Espírito Santo de Deus somente libera poder no momento em que você dá um passo de fé... Deus espera que você aja primeiro. Não espere sentir-se poderoso ou confiante. Siga adiante na sua fraqueza, fazendo a coisa certa a despeito de seus medos e sentimentos”.

 

 

VOU SER PAI

 

TEXTO DE CAIO MORETTO, escritor, sociólogo, professor.

 

Vou ser pai! Recebo a notícia com incrível felicidade. O fato de ser responsável por um outro ser humano totalmente indefeso obviamente me assusta. Assim como me assusta uma segunda responsabilidade que a acompanha. Da necessidade de tornar-me um exemplo para alguém parece surgir uma estranha responsabilidade de ser eu mesmo em toda a minha plenitude.

 De tempos em tempos tenho alguns espasmos de integridade, que me impelem, na voz de Nietzsche (interpretado por Marco Nanini, na minha imaginação), a derrubar minhas máscaras e desculpas: “Torna-te quem tu és!”. Há algum tempo tenho substituído racionalmente esse impulso por outro um pouco mais racional e menos essencialista: “torna-te quem você quer ser”, algo como sugeria a Clarice Lispector ao se perguntar: “se eu fosse eu, o que eu faria?”.

 A primeira vez que resolvi que eu não poderia ser outra pessoa senão eu mesmo (“everyone else is taken”, já disse Wilde) foi quando me apaixonei pela Mari. Fiquei tão desnorteado com a possibilidade de encontrar alguém com quem eu gostaria de passar todos os instantes, que não suportaria que ela se apaixonasse por um personagem. A aposta, portanto, era total: ou ficaríamos juntos porque ela gostaria de mim exatamente como eu era, ou que eu sofresse por saber que ela não gostava de mim, mas do Caio verdadeiro. Ignorei, então, sumariamente todos os conselhos de colegas, parentes e seriados de tevê. E – o que permanece até hoje um mistério inexplicável – funcionou.

 Outro forte espasmo de integridade do qual me recordo veio quando me vi professor de jovens e percebi que o discurso “faça o que eu digo, não faça o que eu faço” não colaria ali. Sentindo-me responsável pelo exemplo que quero ser para os meus alunos, voltei a me preocupar intensamente com quem eu quero ser.

 Numa dessas aulas ensino meus alunos que para Sartre não existe nenhum determinismo absoluto. Para ilustrar a questão, numa dramaticidade talvez mais própria de Kierkegaard, peço que imaginem uma pessoa condenada à morte. Mesmo que não haja como escapar da morte, ainda lhe resta a escolha: morrer resistindo ou aceitando a pena? Acho lindo, no existencialismo, que esse projeto seja algo totalmente individual, mas, ao mesmo tempo, uma construção que só é possível em conjunto, em alteridade. Sem a comunicação, talvez a possibilidade de ressignificar fatos inalteráveis não existisse e, portanto, não seria possível decretar o fim dos determinismos absolutos.

 Se por um lado “o inferno são os outros”, por outro lado a presença em minha vida de um interlocutor que eu seja capaz de amar faz com que eu me entregue integralmente e não desista desse projeto de mim mesmo, que exige um engajamento total do meu ser. O clichê de que “seu amor me faz querer ser uma pessoa melhor”, não me parece totalmente errado, portanto, se o conceito de “melhor” permanecer subjetivo. Senti isso quando me apaixonei pela Mari, quando me apaixonei pelos meus amigos e quando me apaixonei pelos meus alunos. Hoje, mesmo antes de saber como será, sinto essa responsabilidade de me engajar totalmente em meu projeto existencial em toda sua potência, porque antecipo o amor que sinto pelo meu filho.

 Creio, hoje, que a primeira responsabilidade de ser pai, não é abrir mão de quem eu sou. Talvez o oposto disso. Mas escrevo em primeira pessoa, não generalizo, afinal, “ninguém nasce pai, torna-se pai”. Paternidade, assim como a maternidade, são apenas conceitos, que podemos ressignificar.

 Espero que você também possa encontrar nesse ano pessoas que te façam ter tesão pelo seu próprio projeto de vida, para que você possa, como dizia Nietzsche, fazer da sua vida uma obra de arte.

 

 

 

 

A VISITA DOS QUATRO PASTORES

 

Há uma linda história recontada a cada Natal nas florestas de Provença, no sul da França. É sobre os quatro pastores que vieram a Belém ver a criança. Um trouxe ovos, outro trouxe pão e queijo, o terceiro trouxe vinho. E o quarto simplesmente não trouxe nada. As pessoas o chamavam L´Enchanté.
Os primeiros três pastores conversavam com Maria e José, comentando como Maria estava com uma boa aparência, como a caverna estava aconchegante e como José a havia mobiliado tão bem, e que bela noite estrelada era aquela. Parabenizaram os pais orgulhosos, entregaram seus presentes e garantiram que, se necessitassem de algo mais, bastava pedir-lhes. Por último alguém perguntou: “Onde está L´Enchanté?”. Procuraram por toda parte, num lado e noutro, dentro e fora. Finalmente alguém olhou para a manjedoura e viu ali, ajoelhado à volta do bebê, L´Enchanté. Como uma bandeira ou uma chama que toma a direção do vento, ele tinha tomado a direção do amor. Por toda a noite, ele permaneceu ali, sussurrando: “Jesu, Jesu, Jesu...”

ESPERE O CHAMADO

TEXTO DE AUTORIA DA BLOGUEIRA E ESCRITORA MARIA TUDE

           Gosto de ajudar! Gosto de ajudar, principalmente aqueles que amo! Gosto e acredito que é meu dever ajudar a quem precisa!  Gosto de cumprir bem meus papéis familiares e outros... ajudando a todos onde esteja! Mas hoje já me pergunto: O que é ajudar? Como ajudar?

Eu achava que devia me adiantar a qualquer chamado, por amor, evitando que o Outro tivesse que viver o “desconforto de pedir”. Eu não queria, nem devia, esperar que o Outro precisasse reconhecer que tinha uma dificuldade, que precisasse dizer o que queria para que eu pudesse auxiliá-lo, se pudesse. Acreditava, sim, que devia correr a ajudá-lo da forma que, a mim, parecia a melhor. Queria poupar, queria ajudar, queria solucionar!

               Não percebia que, em nome do amor ou da generosidade, eu simplesmente invadia a vida das pessoas, principalmente, a vida das pessoas que mais amava, que eram “meus” familiares, resolvendo à minha maneira, tudo o que achava estar “errado”.  

Querendo orientar, por me sentir mais experiente, eu me intrometia em assuntos que não eram meus e tomava decisões que não cabiam a mim. Não percebia o quanto essa “ajuda” era invasiva e não produzia bons resultados, na medida em que levava a uma acomodação, ainda que irritada, da parte daqueles que recebiam a facilitação. E em algum momento, muitas vezes, fui cobrada pelo que “deu errado”. Eu eximia o Outro de qualquer responsabilidade por suas escolhas e por sua vida. Quando ajudava, com concessões e facilitações gratuitas e contínuas, estava ensinando-lhe a usarem e abusarem de quem era invasivo, mas disponível.

Quando “ajudava” fazendo pelo Outro o que era de sua responsabilidade e competência, eu na verdade estava demonstrando que sabia mais, podia mais e ele, não! Ele ficava apenas como devedor! Eu o apequenava e o humilhava quando, por amor, me intrometia e o atropelava.

 

            Hoje estou, finalmente, descobrindo que essa “ajuda” incapacita, humilha, acomoda, impede as pessoas de serem criativas e corajosas ante os desafios da vida.

 - Estou descobrindo que essa ansiedade, esse afã de ajudar, me intrometendo e invadindo, revela uma crença equivocada do que seja ajudar e dos meus papéis aprendidos. Revela, também, aspectos menos generosos de minha personalidade como arrogância, prepotência, presunção, pretensão... aspectos que eu nem percebia !  (Tem que ser do meu jeito! Eu sei mais e melhor! Eu te amo, você é o meu amor, eu sei o que é melhor para você! Seja grato, eu estou me sacrificando por você... )

 - Preciso aprender a segurar minha ansiedade, meu apego, minha necessidade de ser necessária... e todos esses aspectos do meu insuspeitado orgulho.

 - Preciso aprender a respeitar a história, os desafios e os momentos das pessoas, de quaisquer pessoas, mesmo as que mais amo.

 - Preciso aprender a desencorajar as dependências que minhas atitudes criam nas pessoas, libertá-las e aprender a incentivá-las ante seus desafios.

 

 - Preciso aprender a comunicar minha confiança na capacidade das pessoas, minha disponibilidade, minha atenção, meu carinho, minha parceria e esperar, com respeito, um chamado! 

VOCÊ PODE DAR MEU LIVRO DE PRESENTE DE NATAL

Caro leitor, tenho um novo livro. Chama-se Tem Gente Que Só Se Mata Por Erro de Cálculo. Você pode comprá-lo na Editora Multifoco, link  http://www.editoramultifoco.com.br/literatura-loja-detalhe.php?idLivro=1177&idProduto=1209 - É uma boa sugestão para presente de Natal. Se quiser exemplares autografados, poderá comprar do próprio autor, devo receber uma remessa dentro de 10/12 dias. Faça sua encomenda pelo e-mail zeropires@uol.com.br

Foto: Segundo filho literário de José Roberto Soares Pires, um autor (e sogro ;) ) que adoro! Adquira o seu pelo site http://www.editoramultifoco.com.br/literatura-loja-detalhe.php?idLivro=1177&idProduto=1209

                Beijando a boca torta

 

        Ainda estou com esse assunto  de assombro queimando meu coração. Assombro tem a ver com encantamento, espantar-se, maravilhar-se.

        Numa manhã de primavera, eu estava saindo de casa para dar uma volta, mas parei assim que cruzei o portão. O flamboyant, que a Cecília havia plantado há alguns anos, estava totalmente florido. Chamei-a para ver de perto, pois ela já estava ficando desanimada com a pobre árvore e ficamos os dois ali parados, olhando, encantados.

        Quando conheci a Cecília e percebi que a relação estava ficando séria, achei que devia contar a ela algumas coisas a meu respeito. Comecei assim: Cecília, preciso lhe contar algumas coisas a meu respeito. Tenho quarenta anos, sou cego do olho esquerdo, surdo do ouvido direito, manco da perna esquerda e parei de beber só há alguns meses. Sou alcoólatra.

        Deve ter sido um momento de assombro, de grande espanto para ela. Mas mesmo assim, continuamos juntos. Ela topou namorar o que tinha sobrado de mim.

        O médico Richard Selzer, em seu livro Mortal Lessons, conta a comovente história de um jovem casal:

 

Estou em pé junto ao leito onde jaz uma jovem, seu rosto em pós-operatório, sua boca, retorcida com paralisia, tem um quê de palhaço. Um minúsculo ramo do seu nervo facial, aquele que controla os músculos da boca, foi removido. Ela ficará assim daqui em diante. O cirurgião havia seguido com religioso fervor a curvatura de sua carne, isso eu posso garantir. No entanto, para remover o tumor de sua bochecha, tive de cortar aquele nervinho.

O jovem esposo dela está no quarto. Ele está em pé no lado oposto da cama e juntos eles parecem habitar a luz vespertina da lâmpada, isolados de mim, num mundo particular. Quem são eles? Pergunto a mim mesmo. Olho para aquela boca distorcida que fiz e fico pensando como eles podem olhar um ao outro tão generosamente, com tanta avidez? A jovem me faz uma pergunta:

        — Minha boca vai ficar assim para sempre?

        — Sim — digo, — vai ficar assim, porque o nervo foi cortado.

        Ela assente e silencia. Mas o jovem sorri.

        — Eu gosto — ele diz. — Acho muito bonito.

De repente, sei o que ele está dizendo e baixo os olhos. Sem nenhum constrangimento, ele se inclina para beijar a boca torta, e estou tão perto que consigo ver como ele entorta seus próprios lábios para ajustá-los aos dela, para mostrar-lhe que o beijo deles ainda funciona.

 

DEUS AGE NOS BASTIDORES

 

                    DEUS AGE NOS BASTIDORES

 

        Leia comigo esse texto de Mateus 6:24, versão Mensagem: “quando fizerem o bem,  tenha cuidado para que seu gesto não vire peça de teatro. Pode até ser um bom espetáculo, mas Deus não vai aplaudir. Quando for ajudar alguém, não chame atenção para você mesmo...apenas ajude, com simplicidade e discrição. É assim que Deus, que o criou com todo amor, faz. Deus age nos bastidores para ajudar você.”       

        Em tantos anos de minha vida intensamente vivida, recebi incontáveis bênçãos do Pai. Tanto quando eu era um publicano pecador como quando me tornei cristão, ele sempre agiu com simplicidade e discrição. Nunca pareceu dar a menor importância aos Ibopes, às CNNs e Globos. Ele parece não ter necessidade disso. São incontáveis essas bênçãos e eu sempre lamento nunca ter feito uma lista. Seria muitíssimo prazeroso relembrar cada uma delas.

        No início de 1982, minha irmã Lila viajou 4.000 quilômetros e foi me ver em Teresina, onde eu estava internado numa clínica para deficientes mentais. Naquela época só tinha uma clínica para dependentes químicos no Brasil, a Reindal, em Cotia. O coração da Lila era do Pai, e ela orou por mim todos os dias acho que a partir dos meus 20 anos. Ela costumava dizer que eu estava no colo de Deus. Essa clinica foi o meu fim de linha. Não tinha mais esperança e a vida perdera, finalmente, o sentido. Quando ela chegou, coitada, um calor de 40 graus, disse-me: “Nosso pai aqui na terra me pagou a passagem, mas foi Deus quem me mandou aqui. Eu não posso fazer nada, mas Ele pode salvá-lo e lhe dar uma nova vida.” Achei legal a visita dela, ainda tentei contar algumas vantagens, mas isso foi tudo. Em maio de 1982, porém, eu estava trabalhando em São Paulo e participava de minha primeira e estranha reunião, num estranho grupo, onde senti esperança, que havia perdido. Nunca mais bebi nem usei drogas.

        Em 1983, conheci a Cecília. Como disse um cunhado meu quando foi me visitar em casa, eu já casado: “Essa mulher caiu do céu para você”.

        Uma noite inesquecível no Teatro Municipal de São Paulo, assisti meu filho músico João Poleto receber, das mãos de Serginho Groisman, a estatueta da APCA, como melhor compositor de teatro infantil. 

        Dez anos depois, com a Mariana e o Lucas  a tiracolo, viemos parar em Vinhedo, até hoje não entendemos como. Ou entendemos. Em pouco tempo, a Luciane, esposa de um famoso jogador de futebol na época, o Zé Sérgio, meu ídolo, se aproximou da Cecília, ficaram amigas e, um dia, a levou a uma reunião de mulheres na casa dela. Eu encomendei um autógrafo do Zé. Fui à igreja deles por causa dos filhos, mas tive um forte encontro com Deus, que dura até hoje e a minha intimidade com ele só aumenta.

        Tenho uma prótese de quadril e, em 1999, já havia sofrido 3 cirurgias, estava de muletas, muitas dores e sem médico. Meu grande amigo e cirurgião de confiança havia falecido ainda jovem. O Martim apareceu em minha vida, um alcoólatra a quem eu estava tentando ajudar, me indicou um ortopedista da Santa Casa de São Paulo. Em janeiro de 2.000, fui operado pelo dr. Honda, um japonês de pouca conversa. Na véspera ele veio me ver, no escuro do quarto eu lhe desejei um “que Deus o ajude, doutor”. A cirurgia durou sete horas em que ele, pacientemente, reconstruiu todo meu quadril, para poder apoiar a nova peça, que se estendia do quadril até perto do joelho. Não havia previsão de duração do conjunto, pois se tratava de uma técnica recente. Pois fazem catorze anos que nada sinto, ando muito bem e só uso bengala para andar no shopping com minha mulher, onde ela faz longas caminhadas.

        Bençãos, incontáveis bênçãos.

        O Lucas ganhando uma bolsa para terminar a High School na Flórida. Jogou futebol pela escola, apareceu na seleção do estado. Passou lá um ano e muitas portas se abriram para ele desde então.

        O casamento da Mari com o Caio foi inesquecível. Uma verdadeira ceia ao Senhor, descontraída, com a cara dela, a melhor festa de que já participei.

        Em 1997, eu me converti e me tornei cristão na Igreja Batista Água Viva. Durante alguns anos vivi uma duplicidade desconcertante. Deus havia me tirado da caverna em 1982 e eu ia me restaurando através dos 12 Passos dos grupos anônimos. Na igreja, fui identificando na bíblia todos os menores detalhes dos Passos, literalmente todos. Mesmo assim, nesse período, ouvi alguns poucos crentes, pregadores comentarem que os 12 Passos eram da Nova Era, coisa do diabo. Fui engolindo em seco e seguindo em frente. Até que, em 2003, recebi a maravilhosa notícia. Os passos, comparados às bem-aventuranças, tinham sido introduzidos nas igrejas cristãs através do programa Celebrando a Recuperação (Celebrate Recovery) e caiu no meu colo aqui em Vinhedo. Hoje, está em dezenas de países, até numa igreja cristã de um país muçulmano. Que benção! Que Deus!

        Em 2011, a Cecília teve um diagnóstico de câncer no seio. Teve o cardápio completo, um medo enorme, quimio, perda de cabelo, radio. De uma forma estranha, porém, acho até difícil dizer isso, fomos bem felizes, sempre muito juntos. Começamos um encontro diário nosso com Deus, para oração, auto-exame e partilha que dura, infalível, até hoje. A presença de Deus ao nosso lado foi fortíssima, dava para tocá-lo. Sua promessa se cumpriu: “Sejam fortes e corajosos, não se apavorem nem desanimem. O Senhor seu Deus, estará com vocês por onde vocês andarem”.

        São incontáveis as bênçãos que tenho recebido. Deus, porém, nunca se preocupou em anunciá-las ao mundo. Nas bênçãos incontáveis que você também recebeu, caro leitor, Deus agiu com discrição, como é do seu feitio.    É assim que Deus, que o criou com tanto amor, faz. Deus age nos bastidores”.

        O recado do Pai é que eu aja assim também, com simplicidade e discrição. Sem esperar aplausos.

 

A GRAÇA E OS DOZE PASSOS

 

Entrando no meio de um intenso debate numa conferência britânica acerca de qual seria a contribuição singular, única, do cristianismo quando comparada às religiões do mundo, Carl S. Lewis respondeu: "Ah essa é fácil. É a graça".

Apenas o cristianismo atreve-se a dizer que a graça o amor de Deus é incondicional. Não preciso fazer por merecer. Não é como o Papai Noel, por exemplo; quando eu era criança, minhas irmãs mais velhas falavam que se eu fosse bonzinho o ano todo, ganharia presente no Natal; se não fosse, ganharia um saquinho de cocô de cabrito.

Companheiros deste grupo, no coração de Deus cabemos todos nós. Os maltrapilhos, os dependentes, os pecadores, os que choram, a mulher samaritana, os publicanos, os defeituosos de caráter, eu e os dependentes químicos, que já fomos chamados de "os leprosos do século 21".

Os 12 Passos dos grupos anônimos, inteirinhos extraídos da bíblia, também se apresentaram a mim, desde a minha chegada em 1982, na forma da graça. Os 12 Passos imitam Deus. Ninguém tentou enfiá-los a força em meu coração, nem o próprio enunciado deles revela qualquer indício de  que serei submetido à aprovação/desaprovação. Eles simplesmente se apresentam a mim e a você, de graça. As escolhas são suas.

 

 

PARTICIPAÇÃO

 

TEXTO ABAIXO É DE AUTORIA DA ESCRITORA E AMIGA MARIA TUDE.

Nossa participação em qualquer grupo humano está ligada ao nosso sentimento de pertença, de pertencimento. Participando, sentimos que fazemos parte daquele grupo (Família, Escola, Igreja, Trabalho...). E é também participando que aprendemos, crescemos e florescemos. É compartilhando, trocando, que vamos descobrimos quem somos e o que podemos.

 

Mas como fomos ensinados a participar para podermos pertencer? Bem cedo fomos entendendo que precisávamos disputar para termos um “bom” lugar nos grupos, quaisquer grupos. Precisávamos ser bons, os melhores, para contarmos com a admiração, a valorização, o prestígio, e assim não corrermos tanto o risco de perdermos valor, valores e amores. Aprendemos a participar de uma forma distorcida, nos comparando, tentando sempre muito mais parecer do que ser, o que acaba nos distanciando afetivamente uns dos outros, enquanto nos enredamos nessas artes de defesa/ataque, nesses jogos de prestígio e poder.

 

Nesse modelo egóico de pertencer, disputado e equivocado, fomos buscando participar da forma que nossas características pessoais nos impelem.

- podemos nos omitir, nos esconder, porque somos preguiçosos, letárgicos, ou porque temos medo de nos arriscar, de tomar atitudes, de sermos responsabilizados. Cedemos espaço, mas se algo der errado, a culpa é dos outros, “não temos nada com isso”. Não nos doamos, nada acrescentamos!

- podemos ser os submissos, os sobrecarregados, os obedientes, que também não se responsabilizam porque só cumprem ordens. Preferem sempre concordar para serem aceitos e queridos. Não criam e também não acrescentam!

- podemos ser os eternos críticos, meio “de fora” para melhor apontar os erros dos outros. Tornamo-nos ácidos, amargos, negativos, destrutivos, em nome de proteger o grupo. Não somos amados, mas nos consolamos em ser temidos.

- podemos nos ver como “líderes” condutores, quando somos, na verdade, controladores, arrogantes donos do saber e da verdade. Orgulhosos, não ouvimos os que “nada têm a nos acrescentar”! Queremos fazer tudo no nosso jeito ou tudo/todos controlar, tirando aos outros a capacidade de colaborar e do grupo crescer. Somos movidos pela constante necessidade e ambição de prestígio e poder.

- podemos ser os agressivos, os grosseiros, os ríspidos, os frios, os distantes, os fechados, que não dão afeto, que a todos afastam e, tristes/amargos, se sentem excluídos e abandonados...

 

Podemos desempenhar tantos outros papéis nesse modelo aguerrido!

Mas, nenhum deles nos gratifica, nenhum deles nos aproxima uns dos outros, nenhum deles nos traz conforto e alegria ao convívio. Eles não nos fazem melhores e mais felizes! Como mudar? Não quero simplesmente me afastar e abrir mão das pessoas e oportunidades que passam pela minha vida, em Família e em outros grupos. Quero participar de uma forma prazerosa, que nos acrescente, que nos faça florescer! Cabe somente a mim escolher um novo modo de estar, de participar. Talvez os outros não se interessem em modificar sua participação, mas só posso mudar a mim!

- posso aprender a ouvir, inteira, disponível, com coração e mente abertos.

- posso exercitar a coragem para me revelar, para me colocar, para colaborar, com doação, sem cobrança ou expectativa de gratidão.

- posso descobrir a importância do sorriso, da delicadeza, da gentileza para chegar ao outro, valorizando-o com meu respeito, demonstrando a necessidade de Igualdade e Simplicidade em qualquer relação.

- posso descobrir a Humildade com as minhas falhas e ao compreender as dificuldades do outro ao “calçar os seus sapatos”.

- posso ser uma voz de boa vontade e entusiasmo, uma voz mais firme e serena, querendo apenas participar para cooperar.

 

 

Essa é a Participação que, acredito, se torna a “chave da harmonia” em nossas relações.

 

 

O DEUS EM QUE EU CREIO AMOU PRIMEIRO

 

 

A lição da escola dominical do Lucas,

enigmática, dizia: “primeiro porque nos nós

amou ele amamos”

 

                           

Semana retrasada, conversávamos na casa de amigos, antes de nossa segunda reunião preparatória para um encontro de casais da igreja que frequento. Enquanto aguardávamos dois membros do grupo com as notícias do hotel que tinham ido ver, a conversa enveredou para o velho e irresistível tema conjugal.  Como sempre acontece, todo mundo tinha o que falar a respeito. Na minha vez, eu empolgado explicando detalhadamente como cada um dos presentes tinha que fazer para viver bem com suas respectivas espôsas e maridos:

         - Na verdade, dizia, você é que escolhe se vai passar um bom ou um mau dia com sua mulher. Logo de manhã, ao se levantar, você pode ou chutar a lata de lixo ou levar um café prá ela na cama!

         Nesse exato momento, em meio às risadas, minha mulher, ao meu lado, afirmou alegremente:

         - Se bem que, ultimamente, lá em casa, você só tem chutado lata de lixo...

         Ela nem falou muito alto, mas na hora, quase chutei a canela dela. Passado mais um minuto, pensei tolerante “ela estava só brincando”, e resolvi perdoá-la. O assunto prosseguiu por mais algum tempo, sem nenhum resultado aproveitável, como sempre acontece e logo depois realizamos nossa reunião de trabalho, muito proveitosa, por sinal.

         Acabei não perdoando muito.

         À noite fomos todos nos deitar, eu, o orgulho ferido e a auto-piedade, o meu lado da cama bem pesado. Mesmo assim, tive que concordar que havia um pouco de verdade no que ela havia dito. Um pouco.

         Não estou vivendo uma fase que se possa chamar normal em minha vida. Fiz uma cirurgia em janeiro e estou no terceiro mês de um processo de recuperação previsto para seis meses. O que eu temia, infelizmente, parecia estar acontecendo, Por conta da paciência e da tolerância que se esgotavam, eu estava começando a infernizar a vida de meus filhos, da minha mulher e da Tatá.

- Porque aqui em casa está todo mundo achando que eu não preciso mais de nada, fiz uma reunião outro dia. Ninguém vem e me pergunta nada. Tenho que pedir as mesmas coisas toda hora. Outro dia passei a tarde com os pés gelados porque esqueci de pedir para me colocarem um par de meias. No começo, todo mundo estava preocupado com meu banho. Hoje, tenho que secar as pernas na janela, no vento, porque não aparece ninguém com uma toalha... Tive que parar nesse momento o meu discurso ao Lucas e à Mariana, porque os dois estavam banhados em lágrimas. Eu estava sendo injusto, eles tem curtido muito essas chances de me servir, de me vestir meias, de me secar as pernas. Fiz esse dircurso todo só para os dois filhos, a corda sempre arrebenta do lado mais fraco.

Na verdade, uma das melhores coisas desses tres meses de minha recuperação tem sido justamente curtir e compartilhar, com muito bom humor, essas intimidades de amparar o pai ou o marido, de lhe calçar meias, de lhe lavar os pés. Literalmente, estava todo mundo lavando meus pés. Nas lágrimas deles e no assobio da Cecília (minha mulher, quando está de mal comigo, fica assobiando ou cantando) senti remorso, pude ver que eu é que estava perdendo o fio da meada dos acontecimentos. Sabe aquela fase em que você fica amuado pelos cantos, querendo que todo mundo adivinhe o que você quer?

No domingo, na igreja, estamos aprendendo sobre dons, falou-se sobre servir uns aos outros. Ou, como perguntou o palestrante em dado momento, dentre outras colocações “por exemplo, você se casou para servir ou para ser servido?”

Nessa mesma hora, não sei por que associação de idéias, ou talvez até saiba, afinal servir e amar tem muito em comum, lembrei-me de uma cena em que estávamos no carro voltando da igreja, há mais de um ano, e o Lucas estendeu um papel em que sua lição daquele dia era um quebra-cabeça. Dizia: “primeiro porque nos nós amou ele amamos”.

Ficamos tentando adivinhar a frase correta, até que ele nos informou triunfalmente: “Nós amamos porque ele nos amou primeiro, Primeira João 4.19”.

E o texto continua “...aquele que não ama a seu irmão, a quem vê, não pode amar a Deus, a quem não vê” (I João 4.20) e “ora, temos da parte dêle este mandamento: que aquele que ama a Deus ame também a seu irmão” (I João 4.21).

Amar primeiro. Amar antes. Não amar desde que...

Todas as pessoas, ainda por cima. No mandamento, quando Deus fala de irmão, não está se referindo só à minha irmã que mora em São Paulo. Irmão são  pessoas.  Irmão são meus filhos. Irmão é minha esposa.   

E como é amar antes? Imagino vagamente que é não ficar cobrando de minha mulher o beijo e o abraço que ela, com pressa, esqueceu de me dar hoje cedo. Amar primeiro, antes, ir lá e abraçá-la e beijá-la. Não ficar o dia inteiro com frio nos pés, ir até a Mariana,  pedir-lhe para me calçar meias e ainda curtir a brincadeira dela ajoelhada no chão “tadinho do meu papai, não sabe nem calçar meias.”

Há uma pré-condição, entretanto. E é aí que reside a enorme, gigantesca dificuldade. É preciso aceitar seu irmão exatamente como ele é. Você ama agora aquele que o maltratou ou só vai amá-lo quando ele reparar seu erro? Você ama seu marido ou sua espôsa exatamente como ela é? Com as manias incluídas? Sem cobranças?

Acho difícil. Por exemplo, quando em casa temos um compromisso às oito da noite, por volta das sete e quinze eu já estarei pronto, a chave do carro balançando na mão. A Cecília? Nesse mesmo compromisso, por volta das sete e trinta, ela estará ou regando as plantas ou conferindo talão de cheques. Eu, calmamente, a amo primeiro nesses momentos?. No começo, tinha  uma série de ameaças de infarto, depois ficava torcendo para, pelo menos uma vez, se esquecer de calçar os sapatos (ela fica de chinelos até o último segundo). Hoje em dia, consigo amá-la um pouquinho, embora ainda torça para ela sair de chinelos. Acho que até sei o motivo. Ao longo desses dezoito anos de uma emocionante vida conjugal com a Cecília, aprendi que, mesmo com a natural necessidade  de concessões e ajustes mútuos, é  extremamente importante cada um cuidar de preservar o próprio espaço. Quem se submete demasiadamente às vontades do outro, ou tenta demasiadamente submeter o outro às próprias vontades, tem dificuldade de amar ou de ser amado livremente, obstrui os canais desse amor. O amor ao irmão a que Deus se refere no mandamento precisa ser amado primeiro, amado antes. Incondicionalmente. Nesse texto, não consta que um irmão deva submeter outro à sua vontade ou às suas manias, ou se submeter à vontade de outro. Deve apenas amar.

 

Há um prêmio à sua espera. Aquele que consegue amar primeiro, amar antes, recebe, de imediato, algumas graças de Deus. Fica sem mágoas e ressentimentos no coração, desaparecem os pesos nas costas. Torna-se feliz.

INVENTÁRIO DIÁRIO

 

Qual a primeira coisa que você fez hoje cedo, ao acordar? Você reclamou porque ainda é terça-feira e você está morrendo de sono, ou pensou em dar um beijo em sua mulher ou em seu marido, mas achou melhor ficar quieto, com medo de levar um soco?

Você pensou em agradecer pelo dia de hoje?

        Abraçou o problema ou abraçou Deus? Eu abracei a Cecília, que também é uma forma de abraçar Deus. Ela deu um gemido, ainda sonolenta, e resmungou alguma coisa sobre o horário.

        Hoje cedo, quando eu entrei na cozinha para tomar café, vi que estava chovendo, e isso me deu um enorme prazer. Tenho me assustado com o pouco que tem chovido por aqui. Ainda carrego traumas do sol e do calor da época em que trabalhei no Piauí. Como não havia estradas entre as pequenas cidades do interior do Piauí, as pessoas viajavam pelo leito seco dos rios. Todos os dias eu ia de Elesbão Veloso a São Felix pelo leito seco dos rios. Fico imaginando como seria se começasse a chover. Provavelmente teríamos de ir de barco. Isso só aconteceu uma vez, e nesse dia todos saíram às ruas cantando e se abraçando.

A Meg toma café comigo todas as manhãs. Ela é louca por pão, acho até que gosta mais de pão do que de carne. Dou a ela um pedaço de pão com queijo fresco e uma fatia de melão. Depois que termino o café, deixo um pedaço de pão em cima da pia, num lugar que ela não alcance. É nessa hora que ela dá um show, rosna, late, se joga no chão, e acaba indo buscar a Beth para ganhar o pão.

Depois do café, costumo ir para o escritório e fico lá até perto do meio-dia. Tenho tido bastante coisa para fazer, graças a Deus, e sempre sobra alguma coisa para  depois do almoço. Olho pela janela. A chuva está cada vez mais forte. Minha secretária, Meg, está deitada aos meus pés, com medo dos trovões. Perto da hora do almoço consulto o relógio. A Cecília já deve estar chegando da Arca. A Meg começa a me rodear, esperando que eu lhe dê um pedaço da  minha sobremesa, laranja lima.

Ultimamente tenho me sentido muito bem, e isso me basta. Hoje cedo compartilhei e-mails com algumas pessoas, escrevi uns textos, não disse sim quando queria dizer não, insisti com algumas editoras para que publicassem meu livro novo. Curti muito a criação de um grupo específico do ministério Celebrando a Recuperação no Facebook. Precisamos treinar a partilha por lá. Uma moça me ligou pedindo pelo namorado, que é usuário de drogas. Em um dado momento da conversa, ela confessou que não gostava mais dele, mas queria muito ajudá-lo. Perguntei como ela estava, e ela me disse que não estava nada bem. Se você está mal, perguntei, como pode passar coisas boas para ele? Primeiro, você precisa aprender a se amar.

 

Cada dia é importante porque é único. O dia de ontem ficou para trás e o de amanhã ainda não chegou. Só tenho o dia de hoje para ser um bom marido, um bom pai e para me amar. Só posso amar o próximo na medida certa depois que aprender a amar a mim mesmo.

Quando digo só por hoje, não digo isso por farra. Digo porque é só por hoje mesmo.

 

Encorajem-se uns aos outros todos os dias, durante o tempo que se chama “hoje”.

Hebreus 3.13

 

 

 

CALMA FREDERICO, TUDO BEM FREDERICO

 

Meu filho de nove anos chegou um dia da escola com uma história muito interessante. Ele cursa o terceiro ano do ensino fundamental. Um dia, a classe dele estava especialmente inquieta e agitada, em virtude de uma prova próxima. A professora, D. Iracema, percebendo o clima, em um momento de inspiração, contou sobre o dia em que um papagaio seu, de nome Frederico, caiu do poleiro. A ave despencou lá de cima, pererecou prá cá, prá lá, até que, aos trancos e barrancos, conseguiu empoleirar-se no trinco da porta da cozinha. Ocorre que a porta estava aberta e, com o peso extra, ela começou a andar e ia bater. Apesar da situação crítica dele, a professora contou que deu para se ouvir, nitidamente, o louro falando, enquanto viajava na porta: "Calma, Frederico. Tudo bem, Frederico. Calma, Frederico. Tudo bem Frederico".
Algum tempo depois, estava no corredor em casa quando o Lucas, meu filho acima, passou ventando em direção ao seu quarto, a caminho de resolver alguma coisa bem séria que ele havia se esquecido, a mãe nos calcanhares. Passou bem rápido, mas pude ouvi-lo murmurando entredentes: "Calma, Lucas. Tudo bem, Lucas. Calma, Lucas..."
Ontem à tarde, uma chuvinha fina e fria, estava especialmente irritado no trânsito mole da cidade do interior em que moro. Quando, já xingando alto, ia enfiar a mão na buzina para um fusquinha que se arrastava na minha frente (sou o único cara que buzina nesta cidade), de quem foi que me lembrei? Do Frederico pendurado no trinco da porta!. Resolvi experimentar, antes da briga. E meio rosnando, fui em frente: "Calma Zé Roberto. Tudo bem, ZéRoberto. Calma, ..."
Acabei nem buzinando para o fusquinha. Até fiz um aceno para o motorista quando, discretamente, passei por ele

SUA SALADA DE PEPINOS FICOU AMARGA?

Hoje, vou lhes contar um dos segredos mais bem guardados pelas mulheres. Como você sabe, as mulheres não contam seus segredos para ninguém, trancam-nos a sete chaves. Nem mesmos para seus maridos, nem mesmo ou especialmente para eles, sei lá. Quer um exemplo? Num anoitecer de verão, diga para sua mulher que uma salada de pepinos cairia muito bem e que você mesmo vai fazê-la. Ela vai dizer: “está bem, querido, mas olhe, corte bem fino, ponha pouco sal e só umas gotinhas de azeite”. Você vai para a cozinha , saltitando feito um tonto, faz a salada e a serve geladinha no jantar, orgulhosíssimo. Ela vai comer uma mísera fatia, vai fazer uma careta e vai dizer: “Benzinho, ficou muito amargo o pepino”. Você vai, come e também faz uma careta. Ficou mesmo amargo. Ela então se levanta, dá-lhe um leve beijo de compaixão na boca e diz: “Fique quietinho aí, que eu faço outra salada de pepino’. Aí, ela se vira e, de costas para você, encostada na pia (vocês estão jantando na  copa/cozinha), e faz outra salada de pepino. Fica uma delícia, leve, fininha, suave, zero de amargo.  

        Por aí você vê onde nós estamos metidos, meu caro. E isso vai de mãe para filha, ad infinitum. Outro dia, elas estavam as duas no quarto, minha mulher e minha filha de quinze anos, cochichando. Quando eu entrei, elas ficaram quietas, as duas com um sorriso doce. Elas estavam fazendo planos!

        A salada de pepino? Eu descobri, cara, quase precisei torturar minha mulher, mas descobri. Você pega o pepino, corta uma tampinha dele. Esfrega essa tampinha, em movimentos circulares, no pepino cortado, no próprio local do corte, não muito rápido, durante uns quinze segundos. Repete a operação com a outra ponta do pepino.  Pronto, acabou o amargo.


 

         

VOCÊ SENTE UM VAZIO NO PEITO?

 

Você quer saber quem pode preencher esse vazio que teima em incomodá-lo? Eu descobri. Não é o Palmeiras, nem o São Paulo, nem a casa com quatro suítes, nem os carros, nem a ótima conta bancária, nem os cristais, nem o mármore...

No condomínio onde eu moro, há muita gente  que já realizou seus sonhos. Sonho de uma casa muito bonita, vida financeira finalmente estabilizada, os carros, os quadros, as tantas mordomias muito merecidas após tanta luta e tanto esforço, a qualidade de vida, o canto dos pássaros de manhã, o ar puro, as caminhadas para queimar o colesterol dos churrascos, a segurança. Alguns até ultrapassaram os próprios sonhos.

Eu, por exemplo. Há uns quinze anos atrás, na minha mesa de trabalho, um dia especialmente difícil, lá fora o barulho do trânsito de São Paulo me esperando, desabafei para um colega: Um dia, vou ter um escritório no fundo de minha casa, de frente para um belo gramado. Rimos ambos, aquele era um sonho impossível. Na época, o nosso sonho era um apartamento maior, já tínhamos dois filhos. A gente juntava, juntava dinheiro, quando íamos aos corretores, o apartamento que queríamos estava fora do alcance. Um dia, minha mulher disse para mim, meio no desabafo: vamos comprar uma chácara no interior? Nem sei de onde tirou isso, ela é paulistana da gema, de achar que gramado é uma espécie de carpete que, de vez em quando, se chama alguém para passar “scothgard”.

Hoje, estou escrevendo este artigo naquele escritório e, de quebra, a minha secretária é uma cachorra “cocker” chamada Tatá, que ronca a tarde inteira debaixo de minha mesa. Em 1996, nós já tínhamos tudo isso aqui em Vinhedo. E tínhamos também, eu e minha mulher, aquele vazio no peito. Não compreendíamos o que faltava. Um dia, uma amiga nos convidou para conhecermos uma casa de Deus. Não tínhamos problemas, mas pensando nos filhos, nas drogas, na adolescência, eu não precisava daquilo, fomos à tal igreja.

Nunca mais a deixamos. Não encontramos somente um caminho para os filhos. Encontramos, na verdade,  a paz, o sentido da vida.

Foi lá que eu ouvi, um dia: “Zé, esse vazio que você sentia no peito era o lugar de Deus no seu coração”

 


 

SOFÁ-CAMA PARA TRÊS

 

Quando iniciei a minha última e grande aventura, que era viver a minha própria vida, sem mais disfarces, eu estava sozinho e morando numa quitinete do edifício Copam, muito conhecido em São Paulo.

Duas de minhas irmãs (tenho quatro, todas mais velhas que eu, carinhosamente as chamo de onças, carinhosamente e com justiça, até hoje elas rosnam para mim), embora bem desconfiadas naquele mais do que incerto retorno meu a São Paulo, com muito boa vontade foram comigo até Pinheiros comprar móveis. A bem da verdade, eu fui com elas, fui levado até Pinheiros por elas, nem sabia que lá se vendiam móveis, de Pinheiros só me lembrava bem mesmo era da Penélope, gerente de um botequim no Largo, uma crioula boa de samba e com um corpo de fechar o comércio, sem dúvida responsável por grande parte da constante afluência de fregueses no bar. A Pené foi bastante chegada no poeta tísico, para ela ele fez a poesia Gafieira, terminava assim “na madrugada, finda a batucada, cantar o samba é levar a nega gamada prá ver o céu e cheirar o mar na praia”.

Percorremos loja por loja, as onças são meticulosas. Já de algum tempo elas vinha dizendo que o que eu ia mesmo precisar naquela quitinete era de um bom sofá-cama, um daqueles super-práticos móveis que ora eram sofás, ora eram camas, ora não eram nem uma coisa nem outra com seu pé preso lá dentro, tinham extensões, gavetas que desapareciam, cômodas para meias e cuecas, compartimentos de roupa suja,  vi um que à noite virava bar, cheio de luzinhas que piscavam, parecia um “saloon”, uma vizinha minha no Copam comprou um e perdeu seu cachorrinho “chihuahua” lá dentro, nunca mais achou.

“Pois eu tenho um sofá-cama para tres!”, anunciou o vendedor radiante, na vigésima loja, eu já morto de cansado. “É um milagre da engenharia moveleira”. As onças ficaram encantadas. “Zé, você usa e servirá também para seus tres filhos, quando forem visitá-los”. Murmurei “é mesmo”, estava meio sem opinião naquela época.

“Vejam que beleza”, disse o vendedor apontando o “milagre”, meio jururu num canto, um tecido bege com umas flores desmaiadas. Super confortável, sentam-se tres pessoas fortinhas, até quatro magras,  nem parece que vira tres ótimas camas.

Sentamo-nos as onças e eu. O vendedor deu dois passos para trás, apreensivo. O sofá era cheio de gomos, duro feito um pau e o encosto não ficava para trás, era torto para frente, formava um ângulo agudo de fora a fora. Ficamos nós lá feito tres vês meio deitados.

Levantamo-nos aos poucos, e entre gemidos pude ouvir o comentário abafado, até hoje não sei de qual delas: “Eu gostei, você não gostou? Acho que vai resolver todos os problemas do Zé”. Meio que concordei, também gemendo, ajudando a Lila a sair dali. “Como é que se transforma em camas?”, perguntou a Lila, olhando curiosa para a geringonça.

“O mecanismo é muito simples, vocês vão ver”, informou sorridente o vendedor.

“Não falei?”, anunciou ele, quinze minutos depois, empapado de suor, o dedo mindinho sangrando, mostrando a obra. Não consigo me lembrar, de jeito nenhum, onde se situava a terceira cama. 

Apesar de tudo, ainda consegui salvar o dia. Na hora de mandar faturar o “milagre”, olhei firme nos olhos do vendedor e disse: “Quero também uma cama de casal e um colchão bem macio”. Não olhei para os lados, mas minhas orelhas esquentaram.

MUITAS PEQUENAS PRISÕES

 

Além do álcool e das drogas, que são o top de linha das dependências, há muitas outras coisas que podem nos aprisionar. Por exempo: mágoas, abusos e culpas do passado, ressentimentos, luto, orgulho, insegurança, timidez, medo, relacionamentos quebrados, perfeccionismo, descontrole financeiro, luxúria, obsessão pelo trabalho, mentira, codependência (viver a vida de outra pessoa), jogo, compulsão por compras ou por comida, ódio/ira.     Talvez você me pergunte por que incluí o luto nesta lista. Você vai entender quando eu lhe contar o que aconteceu com uma mulher que conheci em São Paulo. Essa mulher tinha 40 e poucos anos quando perdeu o marido, e nunca se conformou, nunca engoliu o sapo. Em vez de enfrentar a realidade, ela passou a viver uma fantasia, imaginando que o marido estava vivo. Em seu mundo irreal, o marido não havia morrido. Ele continuava levando-a ao shopping, ao cinema e a restaurantes. Aos domingos, ela preparava o almoço para o marido e os filhos, e dizia que todos conversavam muito. Aos poucos, ela foi se afastando da realidade e começou a passar cada vez mais tempo em seu mundo de fantasia.

A meu ver, a codependência é a primeirona das dificuldades listadas acima.  O codependente passa a viver a vida do outro de tal maneira que sua vida se confunde com a do outro a ponto não saber mais do que gosta ou o que sente, só sabe o que o outro gosta, só sabe o que o outro sente, não sabe mais o que quer, só sabe o que o outro quer.      

A codependência independe da situação familiar. Há casos agudos de codependência tanto em famílias em que um dos membros é dependente químico, bem como nos lares onde aparentemente não existe disfunção.

Recentemente, recebi uma ligação de uma senhora cujo irmão, além de dependente químico, era também  dependente de pornografia e de prostitutas. Um quadro bem conhecido, por sinal. O início da conversa foi bem difícil, pois ela se encontrava numa fase crítica de negação. Perguntei se o irmão queria ajuda, e ela então desabafou dizendo:

— Ele é um ingrato. Eu pago o aluguel dele, dou mesada (o cara tinha 35 anos!), cuido da roupa, faço compras de supermercado, e nem assim ele quer ajuda.

— Mas, minha senhora, — respondi, — desse jeito eu também não ia querer.

Na outra ponta da codependência, uma amiga me confidenciou que quando o filho era ainda adolescente ela controlava tanto a vida dele que ele nem precisava anotar as datas das provas escolares. Ela anotava tudo e depois passava para ele. Quem marcava os horários de estudo do filho também era ela.

Durante muito tempo eu me preocupei apenas com minha dependência com o álcool e com alguns vagos e imprecisos defeitos de caráter, mas aos poucos fui me identificando com quase todas as dependências citadas no início deste texto. Pensei então se não seria melhor tratar de tudo isso de uma vez. Foi quando parei de contar só as histórias das dependências químicas e comecei a contar todas as minhas histórias.

        Porque recuperação, segundo John Burns, é contar histórias.

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BRASIL , Sudeste , Homem , Portuguese , Livros , Esportes , José Roberto Soares Pires, autor do livro Sou um perigoso porco-esp

 
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